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Baseado em “O caso do Sr. Valdemar” – Edgar Allan Poe
“Eu não tinha medo de olhar as coisas horríveis, mas ficava apavorado à idéia de nada ver”.
E. A. Poe
John, amigo de longa data, foi o primeiro a me apresentar os tortuosos caminhos da mente humana. John era psiquiatra, mas usava métodos que, muito provavelmente, não seriam bem vistos pelos colegas de profissão.
Uma de suas práticas favoritas era a hipnose. Eu não entendia muito sobre essa técnica, por isso ele resolveu me mostrar como funcionava. Estávamos nós dois no seu respectivo consultório quando uma bela senhora com roupas bem mais curtas que o normal, entrou apressada.
John esboçou um sorriso ao perceber que ali havia um desafio. Eu, no entanto, devo admitir que não foi a mente ela que me chamou a atenção.
Jane, pois assim ela se chamava, afirmou estar sendo perseguida por vozes anônimas que lhe tiravam o sono.
John assentiu e pediu que ela nada temesse, apenas descrevesse o seu mal. Jane contou que as tais vozes lhe falavam de um passado distante, cujos eventos ela não pretendia lembrar.
Sem nada dizer, John foi até a mesa e pegou um pêndulo de cobre cuja ponta sustentava um ônix em forma de prisma. Apagou as luzes e acendeu as velas.
_Observe, estimado Paul. É mais sábio aquele que vivencia e não aquele que lê.
Mesmo no escuro, pude ver sua boca crispada: algo que ele sempre fazia quando se concentrava. Balançou o pêndulo para a esquerda e para a direita até as pálpebras caírem.
_A primeira voz, que se manifeste!_ ele ordenou, com seu irritante sotaque britânico.
A voz se fez ouvir. Era metálica e cortante, algo que, sem sombra de dúvidas, não pertencia a esse mundo.
_Ai de ti que me tornou audível, rebento dos céus. _ ela lamentou_ Sobre seus ombros recairá pesado fardo. Eu venho das terras sem luz, onde a Noite reina absoluta. Um lugar onde outras vozes sem rostos lamentam e gritam, se alimentando de chamas e discórdia.
_Dizei-me o que quer, espírito infame.
_A demência é o ar que preenche meus pulmões, é seiva que me sustenta a vida. A humana, em especial, tem um gosto único...
_Afaste-se primeira voz. Aproxime-se segunda voz.
A primeira voz se foi tão rápido quanto chegou, levando consigo um silvo de lamento que molestou meus tímpanos. Assim, cada uma das vozes foi se extinguindo de modo que, ao final de quase seis horas, Jane saiu do consultório, completamente curada.
Esse episódio me marcou profundamente. Desde então, hipnose tem sido a palavra de ordem em minhas incursões nas bibliotecas.
John sempre me acompanhou nos meus estudos e devo dizer que aprendi muito nos dois últimos anos em que fui observador assíduo de suas seções. Essa parceria perdurou até o dia em que ele contraiu hanseníase e caiu de cama.
Mesmo sem sua agradável companhia, prossegui com minhas pesquisas. John não tinha família na Inglaterra e o mais próximo de um parente que ele podia contar morava na América do Sul.
Com o tempo, constatei algo em minhas pesquisas que me transportou para além das barreiras da euforia: não havia registros de experiências hipnóticas com pessoas à beira da morte.
Quando tomei ciência desse fato, de imediato pensei em convidar John para uma experiência. Sabia eu que ele era um amante da psicanálise e não titubearia um segundo sequer em me ajudar. Mas aí parei para pensar: seria um desrespeito ímpar usar de sua doença como objeto de análise. A vida tinha me ensinado da pior forma que uma hipnose mal feita pode trazer conseqüências catastróficas e, em uma situação tão adversa, os efeitos poderiam prejudicar ainda mais o estado de saúde do coitado.
Por várias semanas, fui tomado pela vontade de convidá-lo e a necessidade de não fazê-lo, até que chegou à minha residência um bilhete curto.
Caríssimo amigo,
Julian e Phil disseram-me que pouco me resta de vida e gostaria de passar meu último dia ouvindo seu sotaque americano.
John
O relógio marcava 09:00 p.m. quando eu calcei minhas luvas e peguei, por precaução, o pêndulo de cobre.
Assim que cheguei ao sobrado, logo percebi que a situação era, de fato, caótica. Enfermeiros saiam e entravam da casa, sempre com cara de espanto.
As nuvens encobriram o brilho lunar e a escuridão bruxuleava sobre a residência.
Adentrei o local e um cheiro e podre invadiu minhas narinas de forma ardente e fez com que eu precisasse recostar a cabeça na parede, nauseado. Constatei que o odor vinha do quarto do meu amigo.
Quando abri a porta, um sentimento de repulsa mesclado com compaixão me envolveu. Deitado, John estava coberto até o pescoço por um conjunto de lençóis. Apesar de tudo, parecia ter plena consciência do que se passava.
_Amigo _ eu sussurrei ao pé do ouvido_ Preciso pedir-lhe algo. Escute com atenção.
E por preciosos minutos, relatei a ele os meus achados no campo do magnetismo. Vez ou outra ele respondia com acenos e sorrisos.
_ ... e gostaria que participasse dessa experiência. _ pedi, enfim.
Ele não pestanejou nem por um momento. Pediu encarecidamente que eu começasse o trabalho e declarou, veemente, que não tinha nada a perder.
Seria necessário duas testemunhas, então optei por chamar o Dr. Julian e o Dr. Phil. Usei o mesmo pêndulo que ele, certa feita, usara com Jane.
Concluído o estágio inicial de hipnose, eu o interroguei.
_Sente-se bem, Tonny?
_Eu estou morrendo... _respondeu com uma voz fraca_ Mas é uma morte fraca, menos dolorosa que a vida.
_E o que vê, Tonny?
_Vejo trevas e luz que se misturam em uma dança incomum. Pelos céus, eu imploro, não me acorde!
Os médicos estavam estarrecidos. Os sinais vitais do moribundo eram por demais fracos e, não fosse o fato dele estar falando tão claramente, julgariam que ali estava um autêntico caso de catalepsia.
Deixei que Tonny descansasse por algumas horas e mais uma vez voltei ao quarto.
_Consegue agüentar até amanhã, amigo?_ indaguei.
_Sim, só me deixe morrer assim. _ ele suplicou em murmúrio quase inaudível.
Fui para casa pensativo. Até agora tudo parecia correr bem e o que mais me intrigava era a descrição de Tonny para o que via. Estaria eu produzindo a primeira EQM assistida do mundo?
Por uma semana ele se manteve vivo e o caso do leproso desenganado pela medicina que sobrevivia há seis dias correu a Europa. Por todos os cantos, boatos de um suposto milagre corriam de boca em boca. Romeiros começaram a cruzar centenas de quilômetros só para acompanhar frente à misteriosa residência o caso que estava desafiando a ciência, que se auto-afirmava tão moderna até então.
Por fim, Tonny já não tinha forças para falar, somente mexia fracamente a boca até que se passaram vinte dias de estado hipnótico.
Estava questionando-o como de costume, quando o relógio soou a décima segunda badalada. De imediato, os olhos de Tonny se abriram bruscamente. Seu globo ocular estava banhado em sangue, a boca aberta e o rosto cadavérico lhe conferiam um aspecto cadavérico.
Ele agarrou meu pulso.
_Eu estava dormindo. E agora... agora... estou morto.
Eu reconheci a voz. Era uma mescla do timbre grave de Tonny com o que atormentava Jane, anos atrás.
_Eu disse que ele carregaria um pesado fardo se me despertasse. Agora é hora de partir... literalmente.
Um sorriso bizarro se esculpiu em sua face. O corpo então começou a se contrair. Quanto mais Tonny gritava, mais o corpo se envergava.
Eu não sabia o que fazer, atônito a tudo.
Um grito de dor quebrou as vidraças e então Tonny se partiu em minhas mãos, completamente podre. Uma névoa escura partiu então o corpo se partiu em minhas mãos, completamente podre. Uma névoa escura partiu em direção a mim.
Lembro-me de silvos cortantes molestando uma vez mais os meus ouvidos. Tinha chegado a minha vez...
Mais um ano que se vai, não é verdade? 2009 foi um ano turbulento: cheio de incertezas, dúvidas com relação ao meu futuro (e se existiria futuro), o início de uma carreira literária que, espero, seja muito próspera...
Mas aí chega Dezembro e bate na gente um sentimento de vazio. É a época em que todos se perguntam "O que eu fiz em 12 meses?". No meu caso, posso dizer que encontrei a minha verdadeira vocação (as palavras), descobri que a profissão que você planeja seguir desde criança pode, simplesmente, não ser a melhor para sua vida, encontrei em Clarisse Linspector um interior que eu julgava que estivesse perdido. Mas isso tudo que falei já não basta.
Paro para pensar na criança de rua que não ajudei, ou por estar cego pelo néon que me transmite uma mensagem capitalista clara, ou simplesmente pelo frenesi dessa vida que não arranja tempo para ninguém.
Paro para pensar em quantos sonhos eu poderia ter realizado sem ter saído de minha casa.
Paro para pensar em todas as vezes que abandonei projetos de uma vida no meio do caminho, justo quando todo o meu esforço começava a valer a pena.
Simplesmente penso e isso me revolta...
Vivemos em uma era em que estamos tão perto e tão longe. Às vezes, conhecemos pessoas da Rússia, mas esquecemos daquele primo isolado que está atolado em dívidas e precisa de um ombro amigo.
No Natal, ficamos todos felizes, nos escondemos atrás de máscaras de bondade e humildade. Infelizmente, já no dia 26 todos tiram os seus disfarces e voltam a ser os insensíveis de sempre.
Aí eu fico me perguntando: qual a vantagem em tudo isso? O preço para ser bem-sucedido é passar em cima dos outros como um trator, sem se importar com ninguém?
Mas então chega o ano novo e fazemos promessas de mudança. E precisamos acreditar que tudo vai mudar: seja 2010, 2011 ou 2012, quem sabe? Existe sempre uma nova chance: cabe a nós saber enxergar e crer na certeza de um ano melhor para todos.
Hoje existem edifícios mais altos e estradas mais largas, porém temperamentos pequenos e pontos de vista mais estreitos.
Gastamos mais, porém desfrutamos menos.
Temos casas maiores, porém famílias menores.
Temos mais compromissos, porém menos tempo.
Temos mais conhecimentos, porém menos discernimento.
Temos mais remédios, porém menos saúde.
Multiplicamos nossos bens, porém reduzimos nossos valores humanos.
Falamos muito, amamos pouco e odiamos demais.
Chegamos à Lua, porém temos problemas para atravessar a rua e conhecer nosso vizinho.
Conquistamos o espaço exterior, porém não o interior.
Temos dinheiro, porém menos moral...
É tempo de mais liberdade, porém de menos alegrias...
Tempo de mais comida, porém menos vitaminas...
Dias em que chegam dois salários em casa, porém aumentam os divórcios.
Dias de casas mais lindas, porém de lares desfeitos.
Por tudo isso, proponho que de hoje e para sempre...
Não deixe nada “para uma ocasião especial”, porque cada dia que você viver será uma ocasião especial.
Passe mais tempo com sua família e com seus amigos, coma sua comida preferida, visite os lugares que ama.
A vida é uma sucessão de momentos para serem desfrutados, não apenas para sobreviver, por isso não protele nada daquilo que somaria a ela sorrisos e alegria.
Ele passou pelo portão bizarramente decorado com dois anjos caídos na suas extremidades. O ranger dos ferrolhos assombrou, mas ele estava decidido.
Rapidamente, vasculhou os bolsos a procura do papel onde estava anotado o número da lápide onde amada jazia. 666: um número no mínimo curioso.
Ao som de um uivo ao longe, chegou ao túmulo. Ela estava lá: inerte, sem vida. Não por muito tempo...
Com uma marreta, quebrou a barreira de cimento que os separava.
Cuidadosamente, colocou o corpo recém-sepultado no chão e juntos uniram seus corpos. Apesar de permanecer fria e sem reação, ele sabia que ela tinha o mesmo desejo que ele, estivesse morta ou não.
Só não poderia supor que a noite faria -2ºC e ele pereceria congelado, eternamente unido a sua esposa assassinada por ele dias antes.
Não consigo imaginar a longa trajetória que devo percorrer daqui pra frente. Um veneno amargo se apossou da minha alma e embaça meus olhos, confunde minha razão.
Ali, bem à minha frente, um ser gelado e inóspito repousa com sangue a cobrir-lhe os pulsos. Um bizarro sorriso enfeita seu rosto de mármore.
As mãos geladas já não transmitem o fulgor da paixão que outrora emanavam. Os lábios, antes vermelhos, agora estão brancos, a face já é dúctil...
O sol já não brilha como antes: as nuvens encobriram seu espetáculo... Venceram, enfim.
Ao seu lado, letras estão imóveis em uma mensagem de despedida. A caligrafia unida não demonstra sequer arrependimento.
As palavras estão aí, uma a uma, porém minha alma já não sabe mais... Amor e ódio, sentimentos (in) distintos que se fundem em um só. Lua e Sol, Dia e Noite, o Crepúsculo...
Aos poucos as estrelas surgem, o vento sopra e a lua banha seu corpo como uma chuva de prata. As lágrimas parecem secar o meu eu. Você tinha se libertado...
Não tenho nenhuma dúvida: você não estaria sozinha. Uso da mesma navalha que ti e a pressiono contra meus pulsos. No céu, nenhuma estrela brilha mais. Riem-se as infames do macabro espetáculo. Só ao longe ouço um assobio do vento que põe fim à minha vida. Liberdade enfim...
Por Igor Silva
No horizonte o Sol ainda brilha
Mas brilha com uma luz fraca
São raios da estrela que grita
Diante de espetáculo sombrio
[resignado e resistente, o Sol está
As árvores já não dançam valsa
Com a doce melodia do vento
[que árvore, que vento?
Minha terra já não tem palmeiras
O sabiá há muito deixou de cantar
Foram silenciados pela chama do inferno
“Plantada” no topo da montanha
Mas essa “planta” cresce ligeira
Em uma hora já tinha se espalhado por uma quadra inteira
O céu deixou de ser azul...
Pobre Urano, virou Urina
Do rio já ao se pode ver o fundo
A mancha de detergente o encobriu
Só resta o lamento do Sol
Diante do planeta inóspito
Um espetáculo que ninguém vai ver
Só as lágrimas do Sol
O som invade a cidade. Buzinas estridentes atordoam os passantes. Edifícios gigantescos somem no céu cinzento da grande metrópole. Lá no horizonte, uma densa nuvem de fumaça encobre o espetáculo do sol ao nascer
O Tietê corre poluído, tão negro quanto o tecido que encobre o corpo, antes pertencente à vítima do crime. Filas quilométricas formam-se na Marginal, em meio a gritos nervosos de quem tenta passar a qualquer custo e de quem é “costurado” por motociclistas que correm pelos (poucos) espaços, a fim de garantir o pão das crianças.
Enquanto damas da alta-sociedade deixam os luxuosos salões paulistas, onde outrora uma esbaldante festa atingia seu ápice, muitos formam filas em frente aos restaurantes populares, em busca da primeira refeição do dia.
Nesse cenário, a menina sai de casa de mãos dadas com um homem de meia-idade engravatado. Finalmente conheceria a empresa onde o pai trabalhava.
***
Ao mesmo tempo, um menino acorda com um “Sai da frente, moleque!”, esboçado por uma voz sem rosto. A luz do sol cega-lhe os olhos momentaneamente, mas é amenizada pela marquise escura. O nariz a escorrer percebe o cheiro de gordura da pastelaria ao lado. Ele recolhe os salgadinhos e as balas e sabe que é hora de trabalhar.
A menina leva a mão um ursinho um pouco gasto. O menino, um peão feito artesanalmente com tampinha de garrafa pet.
A menina entra no carro, um modelo 2001, que o pai sempre prometia trocar no final de cada ano.
***
O garoto sobre em um carrinho de rolimã que funciona como genérico de um skate. E lá vai ele, em direção ao sinal.
***
A menina desamassa o vestido desbotado pelas sucessivas lavagens na máquina. O garoto tenta tirar o excesso de poeira da única camiseta que possui.
***
Ela coloca o rosto para fora da janela para poder admirar o Museu do Ipiranga. As pessoas fecham o vidro na cara do menino quando este tenta fazer seu trabalho.
Para a menina, o dia está perfeito: ensolarado, os pássaros cantando, a agitação pulsando... Para o menino, o sol a queimar-lhe a face e os pombos a roubarem sua mercadoria só dificultam a coisa.
A menina tem fome e pede ao pai um hot dog. O menino usa as poucas moedas que ganhou de gorjeta para comprar um pão com manteiga.
Logo em frente ao carrinho de lanches, a menina vê o menino. Sentado na calçada, ele mordisca o pão, temendo que ele acabe antes de sanar sua fome por inteiro.
Ela olha para seu alimento e depois para o pobre coitado a sua frente. Pensa que a vida havia dado a ela tudo o que ele poderia querer: uma família, condições financeiras razoáveis (embora os pais sempre reclamassem que os altos juros do apartamento acabavam com seus salários), um quarto e uma cama para dormir a noite, protegida do frio. Sabe que ele tem fome e por isso lhe dá seu lanche: afinal, ela poderia comprar um biscoito de maisena na volta pra casa.
Ele olha para ela desconfiado: o que estaria querendo? Mas seu estômago ronca e suas necessidades físicas acabam por superar quaisquer suspeitas. Antes que a menina mude de idéia, arranca-lhe o hot dog e o leva a boca, terminando-o em três ou quatro mordidas.
Ela fica olhando para ele, corroendo-se
Ficam os dois se observando, um tentando compreender o outro. Ao longe, o pai já vem gritando seu nome, acompanhado de uma reprimenda por conversar com um pivete.
A menina dá a mão ao pai, lançando a ele um adeus tristonho. Um peso recai sobre sua consciência: estaria ele, a partir daquele momento, entregue a própria sorte, na frieza crível de uma pirâmide social opressora.
Mal poderia ela saber que poucos minutos depois, o garoto jazeria eternamente na calçada gélida, vítima do desconhecido, indo fazer companhia a mais alguns milhares de meninos sem nome em uma câmara de indigentes do IML.
Nordeste brasileiro (Piauí) – Temporada de seca---
Juliano
Pela terceira vez em três dias, teria de comer farinha seca no almoço. A plantação de milho secara há muito, o poço artesiano estragara, o gado comera o feijão... Nenhuma esperança a não ser tentar sobreviver um dia após o outro.
Nossa casa de pau-a-pique não tem portas, por isso, posso ver minha mãe chorando sobre o corpo de mais um de meus irmãos que acaba de morrer de fome. Ela levanta as mãos aos céus e pergunta angustiada a Deus o que ela teria feito de errado para merecer tamanha miséria.
Ele sabia o que viria depois: ela ficaria absorta em pensamentos, sonhando com um futuro onde pudesse nos dar de comer e beber todos os dias. Um futuro que parecia não chegar nunca...
***
--- Haiti (Porto Príncipe) ---
Mhalika
A minha avó procura desesperadamente um pedaço de comida entre todo o lixo que bóia sobre o rio poluído. Com um graveto, ela vai vasculhando, pedindo aos céus para que encontrasse um mísero pedaço de pão para seus netos, antes que um líder de alguma gangue a pegue na rua após o toque de recolher.
Aqui dentro do barracão, estou eu deitado na cama, me contorcendo em dor. Sinto como se tivessem aberto um buraco em meu estômago: alucinação fruto dos três dias sem comer, talvez.
Ouço tiros de fuzil lá fora. De duas coisas eu tinha certeza nesse momento: minha avó não tinha achado comida e também não voltaria para casa nunca mais...
***
--- África do Sul (Periferia de Cape Town) ---
Judy Ruamgha
Últimos segundos: o que me restava fazer? Morrer era uma boa saída quando se considera a vida que eu levava: em meio aos barracões, largada às ruas, mendigando algumas moedas.
Talvez do outro lado eu tivesse uma cama quentinha pra dormir pela noite, comia todo dia... Afinal, Deus não ia permitir que uma de suas filhas perecesse em fome durante toda a eternidade, certo?
A minha única alternativa agora seria relaxar o corpo e deixar que o HIV com qual eu nascera terminasse seu trabalho e me levasse desse mundo cruel. Meu nome seria apenas mais um a figurar nas estatísticas do governo...
***
--- Iraque ---
Mohammed
Deitada na cama, ainda com o véu cobrindo-lhe o rosto, minha mãe chorava melancolicamente.
Na sala, meu pai fazia preces a Alah, com o corpo virado para Meca, pedindo a ele que lhe desse forças para fazer o que tinha de ser feito. Ele também chorava, mas não queria que eu visse sua fraqueza.
Abri o Alcorão e li algumas passagens, apreensiva. O punho cerrado e os lábios crispados são claros sinais de quem aceita, mas não compreende o porquê de tanta guerra: afinal, não podiam conviver com as diferenças ao invés de expurgar os “infiéis” da face da Terra? Era isso que Alah queria?
O meu pai tinha terminado a prece e agora, amarrava os explosivos em torno do corpo para ir explodir em algum ponto turístico do país...
“Anjos de pureza a vagarem pela Terra. Sorriso estival, vida senil... Marcada pelas durezas de um mundo cruel. Um mundo habitado por pessoas de coração plúmbeo e mente viperina.
Mas ainda guardamos conosco o desejo dos desejos: o início de uma nova era onde seremos apenas crianças...”.



